• Rita Carvalho de Matos

Imposto Rosa: uma questão de ganhar consciência



Não me considero feminista. Na verdade, nunca tinha sentido verdadeiramente na pele a “fraqueza” de ser mulher até ter sido mãe e isso ter levado à minha saída da empresa onde trabalhava por falta de disponibilidade. Mas como esse episódio se manifestou como uma oportunidade de crescimento e descoberta pessoal, estou muito em paz e até agradecida pelas minhas escolhas no processo (que obviamente teve momentos dolorosos e de muita baixa auto estima). Também é verdade que não andei a tentar saber se colegas meus homens ganhavam mais ou menos que eu. Nunca foi algo que me tocasse. Sempre que alguém começava aquelas conversas sobre quem ganha o quê, eu colocava-me a questão interior “trabalharias mais e melhor se ganhasses mais?” E a minha resposta era sempre a mesma. Não.


Mas curiosamente, foi num simples post da Lush que ontem me saltou a tampa sobre a desigualdade. A marca referia-se à expressão “Imposto Rosa”. Um imposto silencioso que simplesmente, em Portugal, cobra entre 7% a 13% a mais em produtos femininos com as mesmas funções que os dedicados ao público masculino (leiam o artigo e-konomista). Fiquei indignada e até me senti enganada, eventualmente, pelas marcas que costumo usar. E senti que esta matéria e tema me motiva a saber mais, a fazer mais e sobretudo a ganhar consciência. E poderia fazer esta pesquisa e reflexão apenas a título pessoal, mas sinto que está intimamente ligada com o meu projecto de alma profissional. Afinal, organizar a nossa casa é praticar a tomada de consciência em tudo o que escolhemos guardar e naquilo que de futuro escolhemos comprar.


Na minha investigação e reflexões partilhadas com algumas pessoas, cheguei a este primeiro conceito: quem definiu que as marcas e o mercado pudessem cobrar mais por produtos para as mulheres? Fomos nós. Com o passar dos anos, com o piloto automático sempre ligado no máximo, deixámos que a pressão social do “parecer” ganhasse a corrida ao “ser”. Então, não só pagamos mais, como usamos 7x mais produtos para ficarmos mais bonitas, mais em forma, e sermos mais aceites pela sociedade. Usamos tónicos, serums, máscaras, creme de dia e noite, ampolas, maquilhagem, desmaquilhante para a cara, para os olhos, cremes hidratantes, reafirmantes, para as olheiras, para o busto, para as mãos, para o corpo, para combater a celulite leve, para a celulite instalada, para combater a celulite de noite e outro para o dia, shampoo para proteger a cor, para proteger do sol, mascaras para fortificar o cabelo, amaciador para as pontas,… a lista é infindável. E a toda a hora nós caímos nesta armadilha de promessas, que até acredito que tragam benefícios, mas que questiono se serão mesmo todas vitais. Os homens quando envelhecem ficam mais charmosos, não é o que se diz? Quantos homens conhecem vocês que usem sequer, diariamente, um creme hidratante de rosto e um para combater olheiras? Começando pela minha casa, o meu marido usa um creme hidratante e um sérum (que até fui eu que fiz, imaginem!), e cera para o cabelo. E posso vos dizer que tem uma pinta do caraças! Mesmo com mais cabelos brancos, a idade assenta-lhe muito bem. Já eu, estou num processo de aceitação de quem sou, de como sou, de querer cuidar de mim de dentro para fora para me amar mais…. Porquê? Onde é que esta exigência toda começou? E sobretudo, o que posso eu fazer para tornar, neste aspecto, um mundo mais igual?


Se não se importarem, vou continuar a explorar este tema e adoraria contar com as vossa opiniões e comentários. Para já, e depois duma boa partilha com a Sofia Borrego da bonita conta IG @holistic.pt, falámos de cabeleireiros: porque é que um corte de homem é tão mais barato, em média 40% (um escândalo), do que de mulher? Mesmo que seja de cabelo curto, porque as há, e não são poucas, não é verdade? Conhecem algum cabeleireiro que cobre o mesmo por um serviço básico de corte quer seja para homem ou mulher?

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